2 ~ (1983) Sinais e Maravilhas
O hospital nos permitiu descer com a Karis e os seus equipamentos médicos para a capela no primeiro andar para nos encontrarmos com membros de nossa igreja que haviam vindo até Chicago para orar por ela. Juntos pedimos a Deus:
- confirmação de que não deveríamos tirar a NPT e deixar a Karis morrer, como os médicos achavam certo.
- confirmação de que deveríamos tirá-la do hospital e levá-la para casa.
- indicação dos Seus planos e intenções, para que soubéssemos como orar por ela.
Enquanto oramos, várias pessoas ficaram convictas de que Deus ia curar a Karis. Uma amiga, Jan, teve uma “visão” da Karis com três anos de vida, com tranças loiras, andando de tricicleta num dia ensolarado na frente de uma casa cinza. Jan acreditou que a visão significava que Karis seria curada com três anos de idade. Através de nossa filha, cujo nome significa “graça”, Deus revelaria a Sua bondade e amor.
A esta altura, Karis estava incapaz de receber uma colher de chá de água dada lentamente através da sonda que passava pelo nariz até o estômago sem vomitar, então alimentação por via oral era impossível. A razão por quê os médicos não queriam mais tratá-la era a natureza muito cáustica da NPT, que logo causaria danos sérios aos órgãos do corpo. Os médicos nos disseram que, se ela ainda estivesse viva, dentro de um ano seria nada mais do que um “vegetal”, sem função cerebral, e tanto o nosso sofrimento como o dela teria aumentado muito acima do que já era. Em 1983, este hospital nunca havia mandado uma criança para casa com NPT e os médicos estavam nervosos com a idéia, apesar de não poderem contrariar o nosso argumento de que, já que achavam que ela deveria morrer, qual diferença faria se algo de errado acontecesse nos cuidados dela em casa?!
Outra preocupação era o alto custo da NPT. Internada, os gastos viravam em torno de mil dólares por dia, sem contar o custo das cirurgias. O limite anual de nosso convênio era $200,000 e já havíamos usado boa parte disso. Mesmo em casa, as despesas somariam centenas de dólares por dia. Do ponto de vista dos médicos, a situação inteira era inviável. Eles “sabiam” que o intestino da Karis nunca funcionaria, e sustentar vida sem motilidade intestinal era impossível. Nos levaram para conhecer uma nené cuja mãe havia tomado a decisão “certa”, para que víssemos que a menina não sofria enquanto morria por falta de alimentação. Nos disseram que deveríamos nos despedir da Karis e então deixá-la no hospital para ser sedada e assim ela também, dentro de alguns dias, morreria sem sofrer. Nós deveríamos voltar para casa, cuidar de nosso filho de 22 meses e fazer os preparativos para o enterro da Karis, e os médicos nos notificariam quando chegasse o momento.
A visão da Jan, da Karis com três anos andando de tricicleta, era muito mais atraente do que este quadro que os médicos pintaram para nós! Quando levamos Karis de volta para o quarto dela após o tempo de oração, estávamos decididos que insistiríamos em levá-la para casa. E tivemos esperança de que Deus iria fazer algo especial por ela.
Naquela noite, o intestino da Karis funcionou pela primeira vez. Nos próximos dias, enquanto eu estava sendo treinada para cuidar do catéter e administrar NPT em casa, o intestino dela funcionou regularmente. Com muita cautela inicialmente e depois com mais ousadia, os médicos aumentaram o volume de líquidos ingeridos por via oral, e Karis nunca mais vomitou. Quando chegou o dia de declararem-me preparada para cuidar da NPT, Karis não estava mais usando-a! Ela estava amamentando no peito, com o catéter selado. (No começo desta aventura, os médicos me disseram que se algum dia ela fosse tolerar alguma alimentação oral, o leite do peito seria ideal, então eu havia mantido lactação por todo este tempo nesta esperança.) O pessoal do hospital estava chamando a Karis de “nené milagre”.
No início de julho, um dia antes do casamento de meu irmão, levamos Karis para casa com muita alegria, crendo que Deus havia sarado-a completamente e que nossa amiga Jan havia apenas inventado a visão da Karis curada aos três anos de idade. A própria Jan se sentia confusa a respeito, pois parecia óbvio que Karis já estava curada, com apenas dois meses! Os médicos também achavam que ela estava bem e em agosto removeram o catéter. Que dia de regozijo para nós, mesmo que Dr. Raff zombava o apelido “nené milagre” que as enfermeiras usavam para Karis. Ele estava convencido de que havia uma explicação lógica e científica do que havia acontecido com Karis, apesar de não saber qual seria.
Karis vingou. Fora as cicatrizes e a ileostomia, ela parecia uma nené perfeita e charmosa. David e eu fechamos o capítulo dos primeiros dois meses tão confusos e estressantes de sua vida e nos preparamos para desfrutar do futuro com nossos dois filhos lindos.
Antes da Karis nascer, eu havia preparado o solo em nosso quintal para uma grande horta de verduras e marcamos com amigos o sábado, 7 de maio, para plantar a horta. Karis nasceu na noite da quinta-feira dia 5 de maio mas no sábado a Cheryl e os seus filhos vieram e plantaram a horta para nós seguindo os meus planos. Aquele foi o único dia em que alguém meteu mão naquela horta por dois meses.
Era meados de julho, no calor do verão norte-americano, quando eu consegui tempo para olhar para aquela horta, após organizar as rotinas de casa com dois filhos pequenos. A horta estava coberta por inteiro de espinhos que cresciam mais alto do que a minha cabeça. Que desastre! Eu deixava Daniel, com quase dois anos, brincando numa pequena piscina de plástico e Karis dormindo numa área de sombra, passava protetor solar, e ia à luta contra os espinhos. Para minha surpresa, no escuro abaixo dos espinhos, cada uma das verduras plantadas havia crescido e deu uma colheita abundante! Tive tanto para dividir que os meus vizinhos provavelmente começaram a resmungar quando me viam aproximando às suas casas com mais sacolas cheias de verduras. Aquela horta para mim era um símbolo vivo da graça de Deus. Nós havíamos feito o que pudemos para que a horta vingasse, mas quando não podíamos fazer mais, foi Ele quem fez as verduras crescerem. Foi um toque da bondosa mão de Deus que aquecia e sarava o meu coração e nutria a minha confiança nEle.
