Adorando a Deus no Deserto
                 Reflexões sobre nossa jornada

ADDs

4 ~ (1984-85) Tijolos Sem Palha, parte 1

Aquele tempo mágico em que Karis estava bem durou seis meses maravilhosos, mas terminou de repente na véspera do ano novo, quando ela começou a vomitar verde. O início de 1984 nos encontrou novamente no Hospital de Crianças de Chicago. O intestino da Karis parou completamente, igual nas primeiras semanas de sua vida, e ela teve que voltar a tomar NPT. Uma cirurgia foi feita para retirar o intestino grosso e mais uma parte do intestino delgado e criar uma nova ileostomia do outro lado do abdômen. Mesmo retirando as partes aparentemente “mortas” dos intestinos, a parte que restou não funcionava e ela estava doente demais para que pudéssemos levá-la para casa.

Percebemos algo estranho: quando ela foi internada dessa vez, Karis agarrou-se à chupeta como se a sua vida dependesse dela, como havia feito o tempo todo na internação nas primeiras semanas de vida, mas desde então, não. Este padrão estabeleceu-se: cada vez que Karis ficava internada, pegava o hábito da chupeta novamente mas desde o momento que chegava em casa, a recusava.

Uma manhã notável eu entrei no quarto da Karis e descobri ela, agora com 9 meses, sentada no berço entusiasticamente decorando os lençóis e as paredes com o lindo sangue que espirrava da linha de soro! Aparentemente ela havia aberto a linha numa das suas conexões. Só Deus sabe o quanto que ela teria sangrado se eu não tivesse chegado naquela hora. Gritei para chamar a enfermeira e mal conseguimos limpar tudo quando entrou Dr. R. A enfermeira estava literalmente trêmula. Me contou mais tarde que se Dr. R tivesse descoberto a Karis brincando com o seu sangue, a enfermeira teria perdido o seu emprego e nunca teria conseguido outro naquele hospital.

Após várias semanas, suficiente função voltou para o intestino para que Karis pudesse tolerar Pregestimil (uma fórmula pre-digerida) diluída recebida gota por gota através de uma sonda naso-gástrica controlada por uma bomba, e foi assim que podemos levá-la para casa. Pelo menos não estava mais na NPT! Havia ficado internada quase nove semanas.

Karis odiava aquela sonda. Foi necessário bastante esparadrapo no rostinho dela para mantê-la no lugar e mesmo assim, quando frustrada, Karis conseguia tirar a sonda do nariz. Aí tivemos que passar pelo trauma de recolocá-la. Pouco a pouco ela conseguia comer normalmente e celebramos a Páscoa retirando a sonda de vez (assim imaginávamos) e enviando a bomba de volta para o fornecedor.

Não conseguíamos entender o quê havia acontecido: Como poderia nossa Karis, curada milagrosamente, ter uma recaída tão drástica? De qualquer forma, mais uma vez ela parecia estar bem e voltávamos à vida normal.

O que era “normal” para nós, porém, assumiu contornos diferentes. Nos próximos dois anos e meio, Karis ficou internada 21 vezes, às vezes por várias semanas. A casa “Ronald McDonald House” aonde poderiam ficar parentes de pacientes virou nosso segundo lar. Karis passou por mais cirurgias e mais períodos dependente de NPT. Quando os médicos nos desenganavam, cada vez Deus a devolveu para nós.

O quê havia acontecido com nosso “nené milagre”? Amigos com as melhores intenções cogitaram respostas a esta pergunta. Havíamos nos acomodado e paramos de exercer nossa fé. Não tivemos fé o suficiente para sustentar o milagre. Havia pecado oculto em nossas vidas e Deus estava nos punindo. Igual Jó, estávamos sendo testados num drama cósmico. (Eu me ressenti particularmente desta teoria, pois os filhos de Jó haviam todos falecido, e eu não queria que fosse o nosso caso!) Com uma freqüência surpreendente ouvimos frases como, “Deus escolheu a sua família para cuidar da Karis porque Ele sabia que vocês teriam condições”—como se houvesse um “estoque” de nenés com problemas congênitos que precisavam ser distribuídos para as famílias mais merecedoras.

Nos colocaram num pedestal ou então nos julgaram e condenaram. Éramos heróis ou então vilões. Nenhuma dessas especulações nos ajudava ou consolava. Como poderíamos jamais saber o quanto de fé seria o “suficiente”? Obviamente éramos pecadores—por qual pecado estava sofrendo tanto a nossa filhinha?

Ah sim, lembrei de mais uma teoria: a razão do sofrimento da Karis seria a nossa confiança nos homens em vez de confiar totalmente em Deus, pois havíamos levado-a aos médicos e permitido internação, cirurgias, alimentação via sonda e catéteres. Se apenas tivéssemos confiado em Deus e mantido a Karis em casa, Ele teria confirmado a cura que Ele havia feito com dois meses e ela não continuaria com problemas. Quando ela começou a vomitar naquela véspera de ano novo, Deus estava nos testando para ver se realmente acreditássemos na Sua cura e nós havíamos falhado no teste. O que veio depois então era culpa nossa e não dEle—como se houvesse uma porção de culpa que precisava ser distribuída.

Todos achavam que tinham a solução para Karis: algo que ela deveria tomar ou comer; alguém especial que deveria orar por ela, alguma fórmula pela qual a nossa fé seria fortalecida para que pudéssemos nos agarrar às promessas de Deus. Ouvimos vez traz vez que o parente do amigo de alguém tinha um problema igual o da Karis e o que essa pessoa fez que funcionou foi . . . (apesar de que Dr. R nos disse que havia encontrado apenas cinco casos nos EUA igual o da Karis e todos haviam falecido na infância, pois antes da existência de NPT não havia como manter estes nenés vivos mesmo para diagnosticá-los).

Aprendi a não reagir com mágoa quando alguém dizia para mim, “não se preocupe, tudo dará certo” com aquela tapa no ombro. Aprendi que isto significava que a pessoa não estava em condições no momento de identificar-se com nossa situação e provavelmente portava uma carga pesada própria. Descobri que há uma maneira útil e uma maneira ofensiva de “usar” versículos bíblicos, que depende na seriedade pela qual a pessoa ora, e de Deus recebe uma indicação de uma passagem apropriada à situação. Pelo contrário, versículos distribuídos como se fossem pílulas—“tudo coopera para o bem,” “não andem ansiosos por coisa alguma”—podem criar ressentimento e isolação por não sentir-se compreendido.

Os que de fato me ajudaram, profundamente, eram amigos que, sem me julgar ou oferecer conselhos, simplesmente me permitiam falar e chorar, expondo o que estava sentindo e as lutas que travava. Ainda me lembrou, vinte anos mais tarde, do consolo que recebi quando confessei para um pastor que sentia que estava esgotada a minha fé. Ele me disse com tanta amabilidade, “Então está na hora do Corpo de Cristo exercer fé por você”.

Na minha luta para manter confiança em Deus, tive diante de mim uma ilustração viva de confiar mesmo sem entender. Pequena demais para compreender os “porquês” de um dado tratamento penoso, Karis permitia que os médicos e enfermeiras fizessem inúmeras “invasões”, desde que falassem honestamente que ia doer e permitissem que eu ficasse com ela. Karis encontrava refúgio nos meus braços, meu toque ou então, pelo menos a minha voz e a minha presença, quando ficar no colo não era possível. Tive múltiplas oportunidades para observar o contrário com outras crianças, que lutavam, gritavam e ficavam com raiva dos pais e assim perderam acesso ao apoio e consolo que os pais poderiam ter lhes dado. O mesmo tratamento que a Karis conseguia suportar com calma, lhes custava muito mais tempo e esgotamento emocional. Percebi que eu era igual uma criancinha, sem capacidade de entender porquê Deus permitia que nós sofrêssemos desta forma. Diariamente, e às vezes de hora em hora, eu também tinha a opção de ficar ressentida e raivosa, rejeitando a Sua oferta de colo, ou de confiar e me refugiar nos braços do meu Pai celestial.


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