Adorando a Deus no Deserto
                 Reflexões sobre nossa jornada

ADDs

5 ~ (1984-85) Tijolos Sem Palha, parte 2

Nestes anos, os recursos de nossa família estavam apertados. David viajava muito pelo emprego, com freqüência ficando fora duas ou três semanas de vez. Ele precisava manter este emprego por conta do convênio que fornecia para Karis. O membro de nossa família que mais sofria, creio, foi nosso filhinho Daniel. Ele estava com 21 meses quando a Karis nasceu, e o seu pequeno mundo se transtornou. De repente ele ganhou uma irmã e perdeu a mãe. Ele até perdeu o berço antes de estar pronto para isso, pois precisávamos deste espaço para Karis com todo o seu equipamento.

A cada vez que a Karis se internava, Daniel tinha que ficar na casa de uma ou outra amiga minha. A cada noite, eu tentava pensar em quem eu havia importunado menos em dias recentes. Quando David estava em casa, ele tinha que trabalhar durante o dia mas podia ficar com Daniel a noite e eu ficava no hospital. Às vezes eles vinham para Chicago e ficavam na Ronald McDonald House. Quando David viajava, eu voltava para casa a cada noite para cuidar do Daniel, o deixava na casa da bendita amiga escolhida naquele dia e voltava para Chicago para passar o dia novamente com a Karis no hospital.

Quando em casa era necessário fazer um procedimento estéril com a Karis, eu precisava trancar o Daniel do lado de fora do quarto, para que não se metesse no campo estéril. Sempre tentava deixá-lo ocupado, mas não funcionava: ele ficava chorando e batendo na porta todos os 30-40 minutos que o procedimento requeria. Eu ficava angustiada com os sentimentos de rejeição e abandono do Daniel mas não sabia como melhorar a situação.

Eu não conseguia deixar a Karis sozinha no hospital, e as vezes que tentei levar o Daniel junto foram desastrosas, apesar do hospital permiti-lo visitar. Com dois e três aninhos, ele era muito curioso e queria investigar tudo. Até eu conseguir desembaraçar os tubos e linhas da Karis para poder tirá-la do berço, Daniel estaria fora, mexendo com os equipamentos das outras crianças ou entrando no elevador e perdendo-se em qualquer parte daquele hospital enorme de doze andares. Eu esperava ansiosa até ouvir pelo alto-falante, “Um menino pequeno que se chama Daniel está no gabinete de segurança no primeiro andar aguardando a sua mãe”.

Eu compreendia a inveja do Daniel, mas ele me deu um pouco de trabalho. Descobri-o puxando a Karis pela cabeça até ela cair no chão e depois escondendo-a debaixo da cama. A próxima vez que a “perdi”, sabia por onde procurá-la! Ela não estava mais segura no berço e nem no meu colo. Cochilando um dia enquanto ela mamava, acordei quando Daniel a agarrou, jogou no chão e ele mesmo subiu no colo. Um dia escutei Daniel gritando, “Mamãe! Nené chorando! Mamãe! Nené chorando!” e descobri-o dentro do berço pulando na barriga dela. Bem, eu choraria também!

Karis, por outro lado, adorava o irmão, e dentro de algumas semanas ele conseguiu se acalmar e retornar o carinho. Entre as primeiras palavras da Karis eram “My Danny” (“Meu Daniel”). Quando finalmente resolvemos colocá-lo numa crèche para que tivesse mais coerência na sua vida, Karis ficava sentada do lado da porta da qual ele saía, chorando “My Danny! My Danny!” Ou, internada, indagava do berço no hospital, “My Danny? My Danny?” Ela não parava de chamá-lo de “meu” Daniel por muitos anos.

Um dia Daniel me perguntou, olhando a própria barriga, “Mamãe, quando é que vou ganhar a minha ileostomia?”

Um grande desafio para mim chegou na forma de uma gravidez não planejada. Eu não conseguia imaginar como fosse cuidar de mais uma criança. Enquanto a Karis dormia no hospital, eu me “divertia” pesquisando as várias doenças das outras crianças internadas, para que pudesse me relacionar melhor com as suas famílias. Havia guardado muita informação na cabeça a respeito de vários problemas congênitos, e a quase cada noite daquela gravidez eu sonhava que este nené nascia com mais um destes quadros, acordando sempre com pânico. A enfermeira do Dr. R me ajudou a ganhar uma perspectiva mais equilibrada. Com crença firme tanto em Deus quanto na santidade da vida, a Donna me ajudou acreditar que Deus, o Criador desta vidinha, me daria o amor e todos os recursos necessários para cuidar dela. Quando nossa doçura Raquel nasceu totalmente sadia, eu mal acreditava. Não pude amamentá-la por muito tempo por causa das internações freqüentes da Karis, mas ela era uma nené calma e tranqüila que logo se apegou ao pai, que ficava com ela muitas das vezes que eu não podia.

Uma manhã pouco antes da Raquel nascer, estava voltando para casa após levar Daniel para a creche. Um carro grande fez uma curva, passou direto num farol vermelho e pegou o nosso carro com toda velocidade, exatamente onde Daniel estava sentado há poucos minutos . Escutei o grito da Karis da sua cadeirinha atrás de mim antes de sentir o impacto do carro. Nosso pequeno carro foi uma perda total e levou uma hora para desembaraçá-los para guinchar. Mas se o motorista velhinho não tivesse pego a gente, teria matado várias crianças que estavam atravessando a rua com o guarda indo para a escola na esquina. O motorista ainda estava gritando a respeito de motoristas femininas quando um policial bondoso nos levou para casa.

Um dos desafios maiores na minha vida durante aqueles meses foi o meu relacionamento com Dr. R. Ele se apaixonava pelos pequenos pacientes mas via os pais como incompetentes adversários. Quando a Karis passava mal, ele gritava e me culpava por qualquer coisa que dava errado. Quase a cada encontro com ele, eu acabava em lágrimas. Uma vez quando a Karis teve que internar-se depois de um passeio de camping de nossa família, Dr. R gritou para mim, “Quando é que você vai aprender que sua filha está doente e você não pode tratá-la como uma criança normal?” Excepcionalmente eu tive coragem de retrucar, “Nunca!”. (Eu sabia que o nosso passeio não lhe fez nenhum mal. Ela podia passar mal estando em casa sem provocação nenhuma.)

A Karis era uma criança completamente normal, com apenas um problema: o intestino não funcionava bem. Isto para mim não era razão para torná-la numa “doentinha”. Karis era tão entusiasmada com a vida que não teria permitido a gente mimá-la. Sempre que tinha energia, ela estava ativa e envolvida com qualquer oportunidade de brincadeira ou aprendizado disponível. Ela dançava antes de andar. Teve um senso de humor cômico e um sorriso maravilhoso. Ela vivia com zelo, amava todo mundo e presumia que todos a amavam.

Eu sabia, de fato, que Dr. R realmente amava a Karis, e junto com a bacana enfermeira dele, a Donna, era isso que me sustentava para poder continuar com Dr. R. Uma manhã cedo, havendo dormido no hospital porque Karis não estava bem, eu estava voltando para o quarto dela e vi Dr. R encostado no berço da Karis dizendo, “Pobre ovelhinha, gostaria de poder ajudá-la”. Apressadamente eu sai do quarto e acho que ele não me escutou pois os meus pés estavam descalços. Quando após alguns minutos eu entrei no quarto de novo, ele me tratou da maneira grossa de sempre, mas eu havia visto uma ternura escondida por trás do exterior seco que me ajudou agüentar a aparente hostilidade dele a respeito de mim.

Em dezembro de 1985, quando Karis estava com dois anos e meio, Daniel com quatro anos e Raquel com oito meses, nós nos mudamos para a cidade de Port Huron no estado de Michigan para morar numa casa encontrada para nós por um imobiliário cristão. Karis foi transferida para os cuidados de Dr. P no Hospital de Crianças em Detroit. Como foi maravilhoso descobrir que um médico podia ser gentil tanto comigo como com a minha filha! Deus foi gracioso nisso, pois o próximo ano seria o mais difícil na vida da Karis até esta data.


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