6 ~ Um intervalo, para pensar sobre sofrimento
Se você perguntasse para Karis, ela provavelmente diria que sabe pouco a respeito de sofrimento e que conhece várias pessoas que têm sofrido muito mais do que ela. De fato, espero que ela ainda encontre energia para escrever a respeito de um tema que ela acha mais relevante a respeito de si: a riqueza, beleza e alegria que Deus tem derramado em sua vida, através de sua família e amigos e experiências maravilhosas como morar no Brasil, viajar e conhecer pessoas de vários países e o privilégio de estudar na faculdade de Notre Dame (“Mãe, acho que estou no céu!”). E sobretudo, ter andado tão próximo ao Senhor quem, mais do que qualquer outro, entende sofrimento e alegria.
Me parece que, tentando ou não “medir” o tamanho do seu sofrimento, a experiência da Karis tem lhe dado uma empatia enorme para com outros que, como diria ela, têm sofrido “de verdade”. Os detalhes são bastante diversos entre um caso e outro, mas parece-me que há um cerne de compreensão que une os corações daqueles que conhecem sofrimento severo e prolongado, seja ele físico ou emocional (tantas vezes é ambos).
Não pretendo tratar do enorme e complexo tema de sofrimento, com todas as implicações e interpretações teológicas discutidas e publicadas numa literatura vasta e antiga—às vezes útil, às vezes escrito por pessoas que obviamente não têm muita experiência particular de sofrimento. Só quero compartilhar alguns pensamentos compartilhados por uma senhora sábia e compassiva, Diane Langberg, que dedica a vida para ajudar pessoas que sofrem até o limite de tolerância do ser humano (tirado de Abuso Sexual, Aconselhando Vítimas, Editora Esperança, 2002, páginas 268-270).
- Raramente o sofrimento faz sentido . Sabemos que o sofrimento é . . . irracional. Trabalhamos arduamente para compreendê-lo. . . penso freqüentemente que a capacidade de explicar o sofrimento constitui o indício mais nítido de que alguém nunca sofreu.
- Raramente o sofrimento parece justo. Quantas vezes você se deparou com o sofrimento em sua própria vida ou na de outra pessoa e pensou que era totalmente justo? Tentamos arduamente equacioná-lo. Os discípulos também o fizeram. Quando passaram por um homem cego de nascença, perguntaram a Jesus: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (João 9.2). Explique-o para nós. Diga-os que é justo por causa de algo que alguém fez. Jesus não ajudou muito nesta questão. Respondeu: “”Ninguém.”
- O sofrimento como tal não é bom. É errado. Não foi planejado para que exista. A morte não é algo bom; o abuso não é bom; a violência não é boa. Às vezes, como cristãos, falamos como se pensássemos que é algo bom. Sentamo-nos diante de um sofrimento indescritível e pronunciamos displicentemente que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8.28). Contudo, não entenda mal. Acredito nesse versículo de todo o coração. Mas não é um versículo superficial, e não declara que o sofrimento é bom. Não diz: “Não se preocupe com o que você está suportando; no final tudo ficará bem.” Na realidade afirma que Deus, a quem adoramos, é capaz de redimir da mais profunda agonia, do sofrimento mais hediondo, da dor indescritível, proporcionando o que dá vida a outros e traz glória a Ele. Contudo não cometamos erros, pois transfigurar a agonia em redenção custou um preço inestimável a Jesus. Normalmente a morte não se transforma em vida neste mundo sombrio. A redenção de Deus concretizada na vida de um de seus filhos sempre é onerosa. A beleza da redenção numa vida jamais chega facilmente. Toda vez que acontece podemos ter a certeza de que adentramos a esfera do sobrenatural.
“. . . Somos vulneráveis a lutas espirituais . . . lutamos para sustentar simultaneamente a realidade do mal e do sofrimento e a verdade eterna de um Deus amoroso e soberano. Muitos de nós . . . respondem a essa tensão tentando negar de alguma maneira a realidade do sofrimento (“Isso não pode ter sido tão ruim. Se você apenas fizer estas três coisas, você se sentirá melhor”), ou encaramos a profundidade do mal e perdemos Deus de vista. Todos nós conhecemos pessoas que lutam arduamente tentando minimizar o mal e o sofrimento e que despendem grande energia para fazer com que sua teologia os ajude. Sempre considerei isso surpreendente, uma vez que nossa fé está centrada naquele que chamamos de Servo Sofredor.”
Karis e eu às vezes rimos a respeito da longa lista de perguntas que queremos colocar para Deus quando tivermos a oportunidade—rimos porque sabemos que ficaremos tão encantadas com a beleza dEle e a alegria da Sua Presença que nada mais nos importará. Enquanto vivermos neste mundo, porém, aonde ainda “vemos apenas um reflexo obscuro”, queremos tratar da dor dos outros, quando ela nos tocar, com mansidão, engolindo as palavras frívolas e levianas que sobem para os lábios, reconhecendo o tanto que não entendemos, mas conhecendo o consolo inestimável de sermos conhecidas por Aquele que verdadeiramente entende o que significa sofrer e promete nunca nos desamparar.
“Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” (Hebreus 4.16)
