Adorando a Deus no Deserto
                 Reflexões sobre nossa jornada

ADDs

11 ~ (1996-1998) Água da Rocha

Boa saúde para Karis, já com doze anos, lhe deu energia para investir em novos interesses (como balé) e novos desafios (ensinando crianças na igreja e no clube bíblico em nossa casa). Para mim, significou novos envolvimentos fora de casa, inclusive um programa de pós-graduação em assessoramento familiar oferecido por um seminário em São Paulo.

David, como sempre, vivia a mil por hora, viajando bastante com o crescimento do MAPI. Aparentemente os nossos filhos floresciam e tudo estava bem.

Só que, reconhecido apenas vagamente por mim mesma, eu não estava bem. Como se tentasse repor tempo “perdido” enquanto Karis estava doente, ou talvez inconscientemente tentando alcançar o David e carregar a minha justa parte do ministério, abracei mais e mais compromissos, numa roda viva que conforme passavam as semanas girava mais freneticamente até fugir do controle. Mas eu estava tão aparentemente no controle, que, por muito tempo, enganei a todos, inclusive o meu marido, inclusive eu mesma.

Em janeiro de 1996, um ano após a cirurgia da Karis, a nossa família acampou por duas semanas na praia de Marataízes, Espírito Santo, junto com várias outras famílias. Que delícia! Todos da família juntos desfrutando de tanta beleza, tão refrescante: as palmas, areia limpa, as ondas do mar mornas e cristalinas, leite de coco gelado, frescos frutos do mar, as crianças correndo livres com os amigos o dia todo e juntando-se aos adultos para uma refeição à noite, brincadeiras, contas e músicas ao som das ondas . . .

O que há de errado neste quadro lírico, em que nossas preocupações principais eram excesso de sol e o dilema de alugar ou não as bóias bananas? Nada—a não ser o que havia acontecido antes de partirmos de São Paulo e o que nos aguardava na volta. Eu estava me sabotando, não sabendo como expressar para o David a minha aflição.

As últimas semanas de 1995 incluíram as seguintes dinâmicas entre nós:

David: Deus me deu a visão de um novo ministério maravilhoso! O que você acha?

Débora: Por favor . . . ainda não! Sei o que significará—muito trabalho para mim. Não posso assumir isso agora. Faltam só alguns meses para que eu termine os meus estudos de pós-graduação e então ficarei com condições de considerar um grande projeto novo.

David: Bem, eu acho que podemos fazer isso, e as pessoas já estão pedindo. Por favor ore a respeito de começar agora e conversaremos novamente daqui uma semana.

Débora (a próxima vez que conversamos a respeito): David, sinto muito, mas não posso assumir este projeto agora. É com certeza uma idéia maravilhosa; só quero esperar alguns meses.

David: Olha, vamos pedir a direção de Deus da seguinte maneira: Vou pedir ajuda de nossa amiga _________. Se ela aceitar, isto tirará bastante peso de seus ombros, e entenderemos que podemos ir em frente. Se ela recusar, eu aceitarei o seu desejo de esperar.

David apresenta o projeto para a nossa amiga. Ela aceita o convite de entrar como parceira. David entende isso como o aval de Deus. Ele começa a planejar e convidar pessoas para participar no primeiro evento, agendando-o para a semana após nossa volta da praia. David está entusiasmado; Débora não. De fato, se ela tivesse reconhecido ou verbalizado os seus sentimentos, diria que se sente traída, manipulada e profundamente desrespeitada. Mas, conforme o seu costume, ela não identifica nada disso. Pelo contrário, ela tenta se disciplinar para ser uma esposa e serva mais meiga e dedicada.

Lá na praia de Marataízes, porém, enquanto todos brincaram e celebraram a gloriosa liberdade do verão, eu me senti deprimida. E sempre que não estava envolvida com atividades junto a outras pessoas, trabalhava para organizar o evento que aconteceria logo após nossa volta para São Paulo.

Antes de partirmos para Marataízes, seis pessoas haviam se comprometido para participar no evento, então o propósito era hospedá-los em nossa própria casa.

Na volta, descobrimos que o número de inscritos, vindo de várias cidades, já estava em trinta e seis. Para o David, lógico, era uma confirmação a mais de que estávamos fazendo a coisa certa. Para mim, implicava uma correria para achar hospedagem e uma maneira de alimentar e cuidar de todas estas pessoas, pois os sítios que conhecíamos estavam todos comprometidos com acampamentos.

Trabalhei de madrugada até tarde. Vários outros ajudaram. O evento foi um sucesso que lançou um ministério que tem ajudado profundamente a milhares de pessoas em cada região do Brasil e em vários outros países. Os livros que David escreveu para alicerçar o ministério viraram bestsellers. Deus claramente abençoou. Eu deveria haver vibrado. A transformação de vidas era o propósito de nossa permanência no Brasil e isto estava acontecendo.

Mas eu não vibrava. Estava deprimida, confusa e magoada. Esta era uma entre poucas vezes em dezoito anos de casamento que eu havia tentado expressar uma opinião seriamente oposta à do David e eu senti que ele não havia me ouvido; não se importou em entender os porquês de minha perspectiva. Na verdade, eu havia “treinado” o David para que não se importasse com os meus sentimentos, pois nem eu mesma costumava me importar. Eu havia me tornado super-experta no teatro de “vida cristã vitoriosa”, afogando desejo e desespero pessoal na personagem Serva de Deus. Agora não estava mais contendo a minha frustração, mas faltavam-me ferramentas para lidar com ela. Eu não sabia verbalizar as minhas próprias carências. Esta vez em que criei coragem para erguer a minha própria preferência, fui demolida. E parecia que o próprio Deus se posicionava do lado do David.

Tratei da minha confusão e frustração da única maneira que conhecia: trabalhei mais intensamente, corri mais rápido, tentei fazer tudo melhor. Apesar de reconhecê-lo na hora, agora acredito que, em parte, eu tentava conquistar o respeito de meu marido (e de Deus?), para que, caso algum dia eu realmente precisasse dizer não, seria ouvida.

Me engajei completamente nesta maneira doida de pensar e me comportar, cumprindo o papel idealizado de esposa-mãe-missionária de tal forma que (quase) me convenci a mim mesma. No meio disso, na segunda metade de 1996, Karis novamente teve sintomas de doença. Não é nada, vai passar, nós nos dissemos. Conforme não passava, contatamos Dr. P e tentamos seguir os seus conselhos, sem deixar que isso derrubasse o nosso estilo de vida. Eu queria um médico em São Paulo, mas eu não separava tempo e energia para ir a procura.

Iniciando 1997, cheguei ao ponto nos meus estudos em que precisava escolher o tema para a minha monografia. Resolvi pesquisar um assunto que estava me incomodando. Nos últimos três meses, treze senhoras haviam me procurado para contar-me suas histórias de abuso sexual infantil. A maioria delas nunca havia compartilhado esta parte dolorosa e preta de suas vidas com ninguém. Eu queria ajudá-las de forma mais significativa do que apenas chorar junto enquanto verbalizaram os horrores que haviam sofrido. E também havia uma motivação mais particular a mim mesma: de descobrir porquê, enquanto falavam, eu me identificava com elas de forma tão profunda, como se estivessem contando a minha própria história. Não me identifiquei com o abuso sexual em si, mas com as dinâmicas familiares que caracterizavam o contexto de cada uma, independente de classe social ou posição na vida atual.

Iniciando a pesquisa, logo descobri que poucos recursos estavam publicados em português. Eu procurei nas coleções de livros de minhas colegas e encomendei livros em inglês dos EUA. Li tudo que consegui achar e a monografia de 120 páginas que entreguei era um resumo do que havia aprendido, juntando o início de um plano para ministério nesta área. Pouco antes de partir para um tempo breve nos EUA em junho de 1997, recebi a monografia de volta com uma série de recomendações da parte de meus professores e a sugestão que a monografia poderia ser transformado em livro. Deixei tudo isso para trás enquanto embarcamos em dois meses intensos de viagens e encontros com as igrejas nos EUA que nos apoiavam.

Antes de sairmos de São Paulo, porém, aconteceu algo que eu não conseguia tirar da mente enquanto viajávamos nos EUA. Eu fui atender a porta de nossa casa para cumprimentar uma senhora que vinha pedindo conselhos. De repente a nossa filha caçula, com nove anos, veio correndo pela sala gritando, “Se a senhora deixar mais uma pessoa entrar nesta casa, eu vou fugir! Esta casa não é mais lar!” Valéria subiu as escadas soluçando e bateu a porta de seu quarto. Depois, ela fingiu que nada havia acontecido e recusou conversar a respeito. Mas o recado penetrou no meu coração, refletindo uma expressão parecida do nosso filho algum tempo antes: “O meu pai não poderia conquistar o Brasil após a minha saída de casa quando eu crescer?”

Claramente, mudanças eram necessárias, mas eu não sabia como consegui-las. Distanciando-me um pouco de minha vida frenética, eu me encontrava esgotada. Em julho, para nossa surpresa, nos encontramos de repente numa reviravolta totalmente inesperada. Estávamos em Colorado Springs para prestar contas com representantes da sede da missão. A minha expectativa era sorrir e dar apoio ao relato entusiasmado de meu marido, e de fato isso aconteceu. Mas aí os nossos entrevistadores viraram para mim e me colocaram perguntas incisivas. Pegada de surpresa, enquanto o David me olhava chocado, eu me escutei falando coisas do tipo “Me sinto totalmente esgotada. Não poderei continuar do jeito que tenho feito. Nem sei se quero voltar para o Brasil. Não quero criar problemas para o David e as crianças, mas não tenho mais energia. Perdi contato com Deus e me sinto uma hipócrita. Acho que não consigo mais ser missionária.”

Caso me imaginasse falando desta forma, o que nunca passou pela cabeça, teria antecipado uma reação da parte destes líderes de nossa missão do tipo, “Veja, as coisas não são tão ruins assim. Olha para os sucessos no ministério! Ergue-se e seja valente! Não desaponte o seu marido!” Pelo contrário, dentro da próxima hora, eles desenvolveram um plano sério para minha recuperação. Consideraram exigir um tempo prolongado de descanso nos EUA, mas diante dos protestos de meu marido, resolveram deixar-nos voltar para São Paulo desde que, por um período de seis meses, eu saísse de todo ministério além de cuidar de mim mesma e de nossa família, e que eu me submetesse a aconselhamento profissional.

De volta no Brasil, este plano radical de um período “sabático” para mim foi apoiado pelo David, pelo líder de nossa equipe em São Paulo e pelo pastor de nossa igreja. O apoio que eu recebi para tornar-me uma “preguiçosa” (no meu modo de pensar) me deu espaço para fazer o trabalho pessoal mais intenso que jamais havia feito. Dentro de pouco, as mudanças enormes no meu estilo de vida e tudo que aprendia a respeito de limites e de conexões entre padrões aprendidos como criança e a minha realidade atual, impactaram a vida do David também. Os primeiros seis meses de meu tempo sabático foram estendidos para um ano e depois para um ano e meio.

Olhando para trás, é fácil perceber os enormes benefícios para mim mesma, para o nosso casamento, para os nossos filhos e para o nosso ministério deste trabalho intenso durante o meu tempo de “descanso”. Em relação à saúde da Karis, também foi importante. Havíamos consultado com Dr. P em junho nos EUA, mas ele não teve muito mais para acrescentar aos conselhos que vinha nos dando. No segundo semestre de 1997, quando a saúde dela continuou a nos preocupar, liguei para ele novamente e descobri que ele havia se aposentado! Me senti totalmente desapoiada. Havíamos contado com Dr. P desde 1986. O colega que substituiu o Dr. P havia conhecido a Karis desde pequena, mas ele não queria assumi-la. Ele nos falou abertamente que não sabia como ajudá-la. Eu não consegui acreditar no que ele me falava. Me senti abandonada, desabrigada. Certamente deveria ter respondido com fé e otimismo, pois Deus havia se mostrado tão fiel a respeito da Karis, mas o meu estado emocional e espiritual era frágil e a situação me parecia inconquistável.

Iniciei a procura de um médico em São Paulo que entendesse o quadro da Karis e pudesse nos ajudar. Consultamos com uma série de médicos recomendados, mas Karis e eu nos tornamos mais e mais frustradas. Conforme passaram as semanas e a doença dela se agravava, a minha crise pessoal aumentava. Não conseguia achar Deus. Não lembrava o porquê de estarmos no Brasil, onde parecia que a vida de nossa filha estava em risco. Mas também lembrava que médicos num grande centro médico nos EUA haviam falado que não sabiam como ajudá-la. O David viajava constantemente e, apesar de dar muito carinho para Karis quando estava em casa, ele deixava todos os cuidados para minha conta. Na altura em que recebemos a recomendação de consultar Dr. U em julho de 1998, eu havia chegado num ponto de desespero e estava em conflito com meu marido. Só a fé e determinação do David nos segurou durante este período.

Dr. U nos apresentou o seu colega Dr. G, um enviado de Deus para a nossa família. Seria difícil exagerar a contribuição de Dr. G para a vida da Karis e para nós, profissional e pessoalmente. Temos com ele uma dívida impagável. Dr. G praticou tanto a ciência como a arte de medicina.

Durante as meses de procura de um médico, eu havia pesquisado na internet, identificado o que eu achava que a Karis precisava, e consultado a longa-distância com Dr. F em Indianapolis, EUA, quem concordou com a minha análise. Dr. G havia lido artigos escritos pelo Dr. F num jornal, então já havia base para uma parceria nos cuidados da Karis. Juntos, eles infundiram esperança numa situação que estava nos derrotando.

Neste meio-tempo, porém, eu cheguei perto de um colapso emocional. Com o apoio informado de aconselheiros, alguns livros excelentes (particularmente o livro Limites de Cloud e Townsend), a o toque curador de Deus, comecei a construção do alicerce para reerguer a minha vida, o nosso casamento e família e, eventualmente, o meu trabalho.


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