13 ~ (1999-2001) A Vitória sobre os Amalequitas
Obs.: Ao longo destes dois anos e meio de minha moradia em Pittsburgh para os transplantes da Karis, o David tem vindo sempre quando pôde, participando do drama dela, dando apoio a ela e a mim. Valorizamos cada dia que podemos estar juntos neste desafio. Mas no passado nem sempre tem sido assim e conforme converso com outros pais cuidando de filhos doentes, sei que a nossa luta não tem sido estranha. O divórcio, já em nível alto na sociedade como um todo, acaba acontecendo com maior freqüência ainda entre casais que lidam com os estresses particulares de doença crônica. Eu preferiria negar ou ignorar esta dimensão de minha jornada mas não consigo fugir da idéia de que alguém talvez possa sentir-se encorajado pela nossa experiência, mesmo se for apenas não sentir-se tão sozinho. Tenho visto Deus agir assim, pela Sua graça, criando no meio da bagunça que fazemos de nossas vidas algo lindo que é muito além do que merecemos. Escrevo o que apresento aqui com o aval e bênção do David. É a minha história, não a dele. Ele escreveu uma parte de sua própria história num livro publicado este ano (Casamentos que se fortalecem por meio da mentoria, Editora Vida, 2006). Certamente você observará que as tensões em nosso casamento não são “resolvidas” dentro do período descrito neste capítulo. Às vezes as coisas não são tão simples assim.
Era um final de tarde lindo. As nossas caçulas haviam brincado o dia todo nas deliciosas ondas do mar que banhavam a areia desta charmosa praia brasileira. A Karis não havia se sentia em condições para banhar. Cansadas, Raquel e Valéria agora estavam dentro do apartamento alugado, entretendo a Karis, e David me convidou para andar na praia. Corremos entre as pequenas ondas que comiam a areia com a subida do maré, conversando com entusiasmo a respeito de vários tópicos, a maioria relacionado ao ministério que os dois amamos. Chegando às rochas que marcaram o extremo da curva da pequena baía, sentamos por um tempo, apreciando as cores místicas do pôr do sol e as luzes ascendendo-se na cidade circunscrito pela praia.
“David,” falei com certa hesitação. “Estou preocupada a respeito da Karis. Ela não está melhorando e eu não estou lidando bem com a situação dela . . .” Olhando para o David enquanto tentei expressar o medo e estresse que sentia, percebi que havia perdido a sua atenção. Seja quais fossem os pensamentos dele, não estavam focalizados no que eu tentava comunicar-lhe. Aquietei-me e fiquei observando-o. A expressão do rosto era distante e o olhar não mudava. Toquei levemente no ombro dele e lentamente ele voltou a atenção para mim.
“Escutou alguma coisa que eu disse, David?” perguntei.
“Acho que não” ele respondeu.
Eu não sabia como repetir o que para mim era difícil de expressar. A nossa conversa paralisou-se e logo o David disse, “Bem, devemos voltar para as meninas.”
“Vá você, então,” eu disse. “Ficarei mais um pouco aqui.”
O David voltou para brincar com as nossas filhas. Sentada na rocha, sentindo-me confusa, solitária, pesada com toda a responsabilidade pela nossa filha que o David por algum motivo não conseguia dividir comigo, minhas emoções estavam congeladas. Nem conseguia chorar. Por quê não podia o David compartilhar comigo esta dimensão de nossa vida em família, nem deixar-me desabafar os meus sentimentos a respeito da Karis? Por quê? Era uma exigência a mais, desafiando à prioridade do ministério dele, algo que mexia demais com o conforto emocional, uma ameaça ao sentimento de poder controlar a vida? Ou outra coisa que nem ele nem eu conseguimos identificar? Por quê sempre batemos nesta grande barreira entre nós, havendo progredido tanto em outras áreas de nossa comunicação? O que deveria eu fazer com o peso deste fardo que parecia-me além de minhas forças para carregar sozinha?
Nenhuma resposta me chegou naquela noite. Após um tempo, perambulei de volta para a família. Estavam tão envolvidos com um jogo de mesa que nem percebiam a minha chegada. Estou inventando, pensei. Tudo está bem. Sou a única que acha que há um problema aqui. Esquece-o. Não o deixe interferir com o nosso feriado.
De volta em São Paulo na manhã de segunda-feira, David viajou para assistir uma conferência. As meninas voltaram às aulas e eu saí para o mercado. Escolhendo frios e verduras, minha mente voltava-se para a nossa conversa abortada do fim de semana, grudando-se nela como um cachorro sacudindo um sapato velho. Como poderia me livrar do nó na barriga que acompanhava cada pensamento a respeito da Karis. Porque não conseguia ter mais fé, desfrutar de genuína confiança e alegria, PARAR DE ANGUSTIAR-ME?
Que tal isso, falei para mim mesma: Vamos eliminar toda preocupação e medo, escolher viver em vitória! Karis está bem! Opa, isto me parece um jeito de viver mais confortável. Você sabe, Débora, que tem a tendência de reagir de forma exagerada, especialmente a respeito de seus filhos. Apenas tenha mais fé! Comporte-se com a Karis exatamente como trata das outras meninas. Deus é o Curador. Acredite na sua cura. Ande confiante e vitoriosa. Sorri! Olhe para cima! É claro que você pode aceitar aquele convite para palestrar, pois Karis estará bem; ela está bem. Afirme isso, creia, viste a camisa da vitória!
Em casa, enquanto tirava as sacolas do carro, tocou o telefone. A PACA. Meu discurso comigo mesma dissolveu-se em uma chuva de lágrimas a ouvir a voz transportada pelo receptor plástico me informar que a Karis havia desmaiado. “Ela está com tanta diarréia . . . achamos que está desidratada . . . já tentamos ligar para você . . . pode buscá-la?”
Jogando as compras na mesa da cozinha, corri para o carro e atravessei a curta distância que separava a nossa casa da escola. Um amigo visitando a PACA me ajudou carregar a Karis até o carro. Ela acordou um pouco quando ele a levantou e, para sua intensa vergonha, vomitou em cima dele. A levei para a sala de emergência onde a reidrataram com soro na veia. Enquanto observava-a voltando à vida, tentei imaginar quantas vezes havia presenciado este milagre: a flor murcha revigorada, cor e consciência e energia conquistando prostração.
Deveria levá-la para casa ou interná-la para observação? Engraçado como o pessoal do hospital perguntava para mim o que deveríamos fazer. O que acontecia com a ilusão de segurança que em tempos passados eu desfrutava, quando ainda enxergava os médicos como autoridade absoluta e as suas pronúncias infalível? Falando de segurança, o que aconteceu com aquela confiança brevemente fabricada na minha auto-palestra a respeito da Karis aquela manhã? E as minhas boas intenções de confiar, orar e lançar todas as ansiedades sobre Deus?
Quando David voltou da viagem, compartilhei com ele a respeito deste evento? Não me lembro. A única parte que merecia atenção particular foi o que aconteceu com o amigo que nos ajudou. Fora isso, era apenas “mais um” numa série de incidentes mais ou menos graves, nada fora do “normal” na vida da Karis. O David estava totalmente, alegremente envolvido num ministério frutífero, com alcance nacional. Parecia-me que estes episódios nem mereciam comentários. Porém, por mais que eu omiti na minha comunicação com o meu marido, não só os incidentes em si mas também a minha reação emocional—tristeza, medo, desespero crescente—mais andávamos em mundos separados e mais difícil ficou fechar a brecha. E com mais facilidade nutria ressentimento. “Ele não se importa”, disse para mim de vez em quando. “Se importasse, ele perguntaria. Se não pergunta, não quer saber. Bem, talvez às vezes ele quer saber o que acontece com a Karis, mas não se importa comigo e as dificuldades que enfrento em lidar com a doença dela dia a dia”.
Com certeza, quando em casa, David presenciava uma parte do que acontecia com a Karis. David adorava tabular e quantificar os seus sintomas. Ele queria que a Karis mantivesse um registro diário da severidade dos sintomas numa escala de 1-10 em cinco categorias: dor, distensão, diarréia, vômitos e obstrução. A Karis odiava escalas de 1-10 mas amava o pai e tentava agradá-lo. Periodicamente ele juntava as estatísticas que ela fornecia e enviava-as para o Dr. F em Indianapolis (EUA), querendo de volta um pronunciamento mágico ou uma fórmula que a consertasse. Fora isso, conversamos pouco a respeito da doença da Karis. Tentávamos viver normalmente. Se ignorássemos o problema, ele talvez sumiria.
Vivemos assim por bastante tempo. Às vezes as crises eram mais graves, como aquela vez quando a Karis quase morreu com uma infecção do cateter, a febre aumentando-se dentro de uma hora acima do nível que o termômetro calibrava, arfando, o corpo roxo e tremendo tanto que foi impossível conseguir uma veia para soro . . . Mas no geral, era uma miséria cotidiana de dor e náuseas e fadiga, perda de peso progressiva, ausências mais freqüentes das aulas e outras atividades.
Iniciando o ultimo ano de colégio, já era mais difícil para a Karis manter o sentido de normalidade. Eu me afastei de quase todas as minhas atividades para que pudesse estar disponível para apoiá-la. Naquele tempo me encontrei no meio de um conflito entre nosso amado Dr. G em São Paulo e o Dr. F em remoto Indianapolis, EUA. Dr. F achava que a Karis precisava de uma cirurgia. Ele não queria continuar dando-nos conselhos a longa distância a não ser que a levássemos para lá para que ele pudesse examiná-la.
O Dr. G com tenacidade se opunha à idéia de outra cirurgia. Ele achou que a remoção de mais uma parte do intestino da Karis só complicaria a situação dela. A solução dele era dependência da NPT (nutrição através de cateter na veia), uma receita difícil para a Karis. Fazer NPT em casa era uma prática nova no Brasil e as tecnologias de luxo, como uma bomba pequena portável em uma mochila não estavam disponíveis. As doze horas por dia que a Karis ficava ligada à NPT a confinava dentro do espaço definido pela extensão do tubo plástico que a conectava à bomba e suporte hospitalar. Ela mudou para o quarto de hóspedes do lado da cozinha e a sala de estar, para que pudesse participar da vida familiar sem ter que negociar escada. Não podia sair à noite. Quando ela comia, passava mal. Quando não comia, muitas vezes passava mal da mesma forma. Às vezes ela optava para comer, especialmente em eventos sociais, mesmo sabendo que pagaria o preço. Durante este ano escolar, a Karis faltava na metade de suas aulas.
“Tem que haver um jeito de levar a vida melhor do que este” eu tentava dizer para o David. Mas como poderia rejeitar o conselho do Dr. G quando ele havia sido tão fantástico com a Karis? E como pôde o Dr. F saber o que recomendar sem examiná-la? Conforme as exigências do trabalho permitissem, o David tentava me ajudar a examinar as alternativas, mas ele parecia incapaz de sentir a minha dor, a minha ansiedade pela Karis, o meu desespero para tomar a decisão “certa”. Conversar a respeito da Karis era um assunto passageiro para ele. Sempre estava engajado com outras prioridades: um artigo para escrever, uma conferência para organizar, mais uma viagem . . . O David trabalhava tão intensamente e o que produzia era tão valorizado. Como poderia eu distraí-lo com os probleminhas de uma mocinha, quando ele servia centenas no país afora? Mas, disse-me o meu coração revoltado, o que valia todo o resto se ele não conseguia cuidar da própria filha e esposa? E se nós investimos o dinheiro para a viagem até Indianapolis (para nós, um grande compromisso num salário missionário) só para descobrir que o Dr. F não pôde ajudar a Karis? E se o Dr. G estivesse certo e mais cirurgia só fosse prejudicá-la a longo prazo? E se nós perdêssemos o que era para nós mais do que uma ligação profissional com o Dr. G, uma amizade preciosa?
A própria Karis finalmente tomou a decisão. Ela lembrava os tempos de “oásis” que ela desfrutara após as suas outras cirurgias—meses ou até anos de livramento de doença—e esperava que isso pudesse acontecer novamente. “Então, Senhor, aqui vamos nós de novo” orei. “A última vez que estivemos em Indianapolis, o Senhor me ensinou uma grande lição. Quero te honrar desta vez, mesmo quando for difícil, mesmo quando não entender o que acontece”. Telefonei para a minha amiga Mary e pedi a sua ajuda em intercessão enquanto engajasse nesta batalha. As minhas amigas Marty e Anita na minha imaginação eram como Arão e Hur segurando os braços de Moisés na montanha enquanto Josué lutava contra os amalequitas no vale. Eu sabia que, sem o apoio delas, não conseguiria cumprir o voto que estava fazendo com Deus, de pôr em prática o Salmo 145.2: “Todos os dias te bendirei”.
Sentindo agudamente a convicção do Dr. G que estávamos tomando a decisão errada, marcamos consultas com o Dr. F e com a Dra. W, a cirurgiã que ele nos recomendeu, para o 24 de abril de 2001. Viajamos alguns dias antes, para que a Karis pudesse visitar duas faculdades que estava considerando, a Wheaton e a Notre Dame, pois logo encerraria o prazo de compromisso em que ela teria que escolher ou uma ou a outra. Àquela altura, era difícil imaginar que, até agosto, ela estaria em condições de assistir qualquer faculdade. Mas ela contava com a idéia de que uma cirurgia pudesse proporcionar saúde suficiente para que completasse pelo menos a metade dos quatro anos de faculdade. Tamanho era o anseio por uma vida “normal” que ela estava disposta a arriscar tudo na esperança de alcançá-la.
A fala do pessoal da Wheaton era igual à de várias universidades no litoral leste: a Karis poderia assistir as aulas mas não seria permitida morar dentro da faculdade, como fariam todos os colegas, enquanto dependesse da NPT. A esta altura eram poucas as comidas que caíssem bem na Karis. Sabendo da importância social do refeitório, ela pesquisou os oferecimentos do famoso refeitório da Wheaton e saiu dizendo que não havia nada lá que ela pudesse comer.
A nossa visita para Notre Dame era totalmente diferente. Lá, as pessoas nos faziam sentir que realmente queriam a Karis e fariam o necessário para que ela pudesse ter sucesso na faculdade. No refeitório disseram que, se faltava alguma coisa, a conseguiriam para ela. No centro de saúde da universidade, as enfermeiras a acolheram, confiantes de que poderiam dar o apoio necessário para que ela morasse junto aos colegas mesmo com a NPT. Se tornasse necessário, o centro médico da cidade estava a cinco minutos do campus (Tudo isso tornaria a situação da Karis mais fácil de manejar do que morar em casa e fazer a faculdade em São Paulo, outra opção que investigamos seriamente.)
Mas ainda não sabíamos se a Karis pudesse ser ajudada pelos médicos em Indianapolis na medida necessária para lidar com as exigências da vida universitária. Lá, ela completou os exames pedidos enquanto o Dr. F e a Dra. W avaliavam os exames que ela trouxe de São Paulo. Na opinião deles, não restava dúvida de que uma cirurgia estava indicada para retirar uma porção do intestino que não estava funcionando bem. A cirurgia foi marcada para o dia 27 de abril. Logo antes de ser levada para a sala de cirurgia, a Karis me entregou o cartão assinado indicando o compromisso dela para ingressar na Notre Dame em agosto, pedindo que eu o colocasse no correio. Foi um ato de fé e de esperança.
Sentada sozinha na sala de espera enquanto a Karis estava em cirurgia, para minha surpresa, de repente entrou o meu marido! Um amigo em São Paulo havia confrontado-o com a importância de estar conosco. David orou a respeito e pegou o próximo vôo. Pouco depois da chegada dele, recebemos uma segunda surpresa: a Dra. W saiu da sala de cirurgia para informar-nos que a parte do intestino que ela pretendia retirar estava presa num emaranhamento de aderências e ela achou que isso poderia explicar a disfunção. Ela retirou então as aderências, o que levou várias horas, e fechou o abdômen da Karis sem cortar o intestino. Ficamos extáticos! Parecia-nos que tanto o Dr. F como o Dr. G estavam certos! A Karis precisava de cirurgia, mas não de remover parte do intestino.
O David passou o fim de semana conosco e depois voltou para São Paulo. Não foi uma visita totalmente feliz. O David havia cancelado compromissos e gastado bastante dinheiro para . Ele lutava para entender se isso havia sido “desperdício”. Eu pedi que ele nunca mais tomasse uma decisão assim sob pressão dos outros. Afrontada, eu lhe disse que não tinha mais expectativa nenhuma de que ele compartilhasse comigo dos cuidados da Karis. Se em algum momento ele quisesse participar, seria bem-vindo, mas só se viesse com o coração livre e desejoso de estar conosco. Pior ficou ele haver vindo infeliz e chateado, do que não haver vindo.
David diz o seguinte a respeito deste evento:
Orei a respeito da viagem e acreditei que era a decisão certa, então comprei a passagem e o resto é história. Faz sentido para mim que a minha mente e as minhas emoções não entravam em acordo, mas era a minha própria decisão e ninguém me forçou a tomá-la. De qualquer forma, as minhas emoções confundiram a conversa com a Débora e acabei magoando-a. Lembro, sim, que a conversa foi penosa e eu me senti mal, mas sem saber o que fazer a respeito naquele momento.
“Todos os dias te bendirei . . .”
A visita do David estimulou e focalizou a minha batalha particular. Estávamos lutando, é claro, pela saúde da Karis, mas a minha contenda era com ressentimento, raiva, falta de fé e confiança, amargura. E mais: tive que enfrentar a verdade de que eu queria mais que o David “cuidasse de mim” do que confiar e depender de Deus. Durante as primeiras semanas de nossa estadia em Indianapolis, lutei para entender e deixar no altar diante de Deus o meu desejo e tentativas de mudar o meu marido, de forçá-lo a acomodar-se ao molde que correspondia às minhas carências. Deus me mostrou que tinha mais do que suficiente para trabalhar em minha própria vida e que a amargura que nutria era tão errada e tão destrutiva de mim mesma e das pessoas ao meu redor como qualquer deficiência que enxergava no David. Dois conceitos que ensinávamos no ministério de restauração me confrontavam: 1. Você só pode mudar a si mesmo. 2. Você é responsável por si mesmo, pelas suas próprias necessidades, desejos, sentimentos e escolhas. Passar esta responsabilidade para outra pessoa não funciona.
Minha amargura em relação ao David estava enraizada num tipo de idolatria: esperando do David o que só Deus podia ser e fazer por mim. Conforme admiti e submeti para Deus a minha raiva, amargura e pena de mim mesma, consegui realmente “liberar” o David das exigências e expectativas que por muitos anos havia segurado. Nisso tomei um grande passo na direção de deixar de lado a minha dependência dele que, como um câncer, havia crescido fora de proporção e precisava ser recortada se fôssemos relacionarmos de modo sadio. Eu precisava, ao mesmo tempo, reconhecer as minhas necessidades válidas, aprender a expressá-las e dar para o David a chance de responder a elas, antes de julgá-lo de antemão como indiferente. Pouco a pouco reconheci a minha tendência de desistir rápido demais nas minhas tentativas de comunicarme com o David. Ao mesmo tempo, esperava que ele “adivinhasse” e preenchesse os meus desejos. Consegui entender que a minha própria carência e infelicidade, raramente expressadas em palavras mas óbvias na comunicação não-verbal, pressionavam o David e dificultaram a reação dele.
De alguma forma (graças às minhas intercessoras, acho!), Deus me concedeu graça para lançar sobre ele as minhas necessidades e esperar dele o que precisava naquele período em Indanapolis. E ele cuidou de nós de modo inesperado! Pessoas maravilhosas “apareceram” no hospital para nos ajudar e encorajar, várias delas vindas da mesma igreja sem que umas soubesse das outras. Tempos de adoração naquela igreja eram para mim refrigério. Amigos montaram uma grande festa de aniversário no hospital para celebrar os 18 anos da Karia e deram para ela mais presentes do que ela jamais recebeu de uma vez, antes ou depois. Uma noite quando estava tomada de solidão e preocupação pela Karis, com saudade da minha família no Brasil, um voluntário na Ronald McDonald House me deixou literalmente chorar no seu ombro e fiquei grandemente consolada. Sinto tanta gratidão por cada pessoa que Deus usou naquelas semanas como mensageiro da sua graça.
A Karis sempre recuperava lentamente das cirurgias então inicialmente não nos preocupamos quando passaram-se as datas em que ela deveria alcançar certas marcas de recuperação. A mãe da Dra. W faleceu e ela viajou, deixando a Karis sob cuidados de um cirurgião colega que parecia não ter nenhuma compreensão da Karis. Ele era arrogante, descortês e sem senso de humor—como ele foi parar num hospital de crianças eu não conseguia entender. Um dia a Karis, querendo “quebrar o gelo” com ele, pintou cada unha dos pés uma cor de esmalte diferente e quando escutamos os médicos no corredor, colocou os pés no travesseiro e a cabeça debaixo do lençol e cobertor. O cirurgião ficou aguardando impacientemente do lado da cama, batendo o pé no chão e disse “Karis, não tenho tempo para isso”.
“Todos os dias te bendirei . . .”
Este cirurgião declarou que a Karis não estava melhorando porque ela não queria recuperar. Ele achou que ela precisava de cuidados psiquiátricos. Eu não conseguia imaginar como ela seria capaz de produzir, mesmo inconscientemente, copiosos vômitos verdes quando tentava comer, nem psicossomaticamente criar o grau de distensão e dores abdominais que estava sentindo. Algo estava errado e parecia-me que este “cirurgião substituto” não se importava em descobrir o quê. Finalmente fiz apelo ao Dr. F. Ele imediatamente pediu novos exames e até o final do mesmo dia comprovou que Karis estava com obstrução intestinal. Ele pessoalmente ligou para a Dra. W e perguntou se ela pudesse voltar para cuidar da Karis. No próximo dia, o 18 de maio, a Dra. W operou novamente e retirou a parte obstruída do intestino. Então a Karis começou a recuperar-se!
“Todos os dias te bendirei . . .”
No dia 4 de junho Karis e eu saímos de Indianapolis, de volta para São Paulo, para a nossa família e casa, para os cuidados de Dr. G. Karis pôde participar da formatura junto aos colegas do colégio no dia 9 de junho. Surpreendida por uma grande salva de palmas, de início ela ficou em choque, paralisada. Aí, diz ela, percebeu que as pessoas estavam honrando não a ela, mas a Deus, que havia conduzido-a pelas águas de tribulação. Com isso ela pode relaxar e também bateu as palmas, expressando junto a toda aquela grande platéia a sua gratidão a Deus pela sua fidelidade.
Karis achava que não “merecia” se formar, dado as múltiplas faltas nas aulas e a porcentagem pequena de trabalhos que conseguira completar. Ela esperava passar as férias trabalhando para entregar quantos pudesse. Os administradores do colégio, porém, decidiram aceitar o que ela havia feito e só dar notas a esses trabalhos, absolvendo-a do restante. Disseram que a qualidade do trabalho dela durante todos os anos do colégio era de qualidade alta e que não restava dúvida de que ela estava pronta para cursar a faculdade.
A Karis demorou para aceitar esta generosidade da parte da PACA, pois ela não queria ser tratada de modo diferente dos outros só porque esteve doente. Mas acabou sendo uma grande bênção. No esforço de participar da formatura, a Karis havia aberto a incisão cirúrgica, que infeccionou. Ela teve que passar quatro semanas de cama. Ela ainda dependia de NPT e logo teve que internar-se com mais uma infecção do cateter. Conforme aproximava a data de partida para a Notre Dame, nós duvidamos da sabedoria de deixá-la ir. Pela graça de Deus, porém, ela melhorou e antes de partir para os Estados Unidos conseguiu a retirada do cateter, pois podia comer novamente via oral.
Antes de partir para o primeiro semestre na Notre Dame, a Karis recebeu mais uma grande surpresa encorajadora: o aviso de que fora escolhida para compor o grupo de “honra” na universidade, um programa especial reservado para sessenta entre os dois mil alunos da turma dela. Fazer parte deste pequeno grupo fez uma diferença enorme na adaptação dela. O acolhimento e amizades fornecidos neste grupo permitiam que ela florescesse na universidade. Deus tão graciosamente concedeu-lhe vários meses de saúde excelente. Quando ela regressou para o Brasil para celebrar o natal conosco, um espaço dolorido em nosso coração sarou-se ao ouvir o Dr. G nos dizer que achava que havíamos tomado a decisão certa quando a levamos para operar em Indianapolis! Bendito seja o nome do Senhor!
