17 ~ (Natal 2003-Março 2004)
O Anjo de Deus à Frente
A Karis e o Daniel passaram um tempo maravilhoso na Turquia, apreciado ainda mais porque a Karis não sabia quando seria permitida viajar de novo fora dos EUA. Enfermeiras do centro de saúde da universidade a ajudaram a empacotar tudo o que precisaria durante a viagem: a NPT, bolsas de soro, medicamentos, tubos, siringas e todo o mais que ela usava dia a dia. Ela teve que usar o peso de bagagem permitido só para compôr os equipamentos médicos, então ficou dependente das amigas na Turquia para emprestarem-lhe roupas! O mistério e a mágica de Istanbul captou as suas imaginações: a cidade que é um portão entre a Ásia e a Europa, o Oriente e o Oeste; uma civilização antiga orgulhosa, enfrentando os desafios da modernidade.
Entretanto, em distante São Paulo, o David, a Raquel, a Valéria e eu estávamos nos ajustando a celebrarmos o natal sem toda a familia junto. Ainda bem que só depois ficamos sabendo do drama da saída do Daniel e a Karis da Turquia. Nas semanas anteriores a Turquia havia lidado com várias "bombas humanas", portanto a Karis, ligada a uma máquina “viva” com um tubo de plástico entrando no seu corpo, estava suspeita. (As autoridades turquianas desconheciam bombinhas de infusão de soro e cateteres centrais.) As extensas investigações da parte da segurança do aeroporto humilharam a Karis, frustraram o Daniel por não poder protegê-la e resultaram na perda do vôo. O senhor da família que havia hospedado-os em Istanbul generosamente interveio para segurar outro vôo, desta vez com escala na Alemanha--mas lá, a companhia aérea recusou honrar as suas passagens! Finalmente conseguiram sair, mas chegando em Nova Iorque o Daniel teve que ir direto do aeroporto até o trabalho, atrasado e sem haver dormido.
O que interessa, porém, é que consiguiram voltar, junto com a NPT e os medicamentos e tudo do qual a Karis dependia. Foi uma aventura mais engraçada olhando para trás do que passando por ela. Nova Iorque estava num tempo de gelo récorde. Em vez de sair para passear nos lugares turisticos, como havia planejado, a Karis passou os seus três dias lá tentando aquecer-se dentro do apartamento do Daniel e recuperar as energias gastas na viagem.
Uma vez de volta em South Bend, junto com o início do novo semestre da faculdade, a Karis teve que completar uma série de requisitos para entrar na lista de espera para o transplante. O alvo era alcançar a melhor condição possivel para cada sistema do corpo para prevenir procedimentos cirúrgicos ou tratamentos avulsos pós-transplante, quando o sistema imunológico estaria suprimido.
A Karis foi alistada para transplante intestinal no 15 de janeiro de 2004. Sabíamos que ela não seria chamada imediatamente, então marquei para ir de São Paulo até South Bend no início de fevereiro, quando a Valéria voltava às aulas. Deixei mais ou menos tranquilamente o meu marido, a minha filha caçula e amigos no Brasil, achando que estaria nos EUA por apenas alguns meses. Falei confiantemente para o atual grupo REVER em nossa igreja que até agosto estaria de volta para participar de sua formatura do curso. Amigos se ofereçeram para hospedar a Valéria quando o pai dela viajasse. Havíamos considerado a possibilidade da Valéria passar um semestre estudando nos EUA, mas ela preferiu ficar em São Paulo.
De inicio, fiquei num quarto de hóspedes dentro da república da Karis na faculdade, um lugar conveniente para que pudesse empacotar tudo que lhe pertencia que não precisava usar no seu dia a dia. (Sabíamos que, sendo chamada para o transplante, a Karis teria que aparecer no hospital em Pittsburgh--por terra, sete horas distante--dentro de três ou quatro horas e teria que ficar em Pittsburgh por seis meses de recuperação.) Após alguns dias, outra família precisava do quarto de hóspedes, e amigos bondosos que moravam perto da faculdade me acolheram.
Eu e a Karis tivemos que portar telefones celulares, para que a equipe de transplante pudesse entrar em contato conosco a qualquer momento. A Karis não gostava disso; ela se irritava quando o telefone celular interrompia as suas conversas e atividades. Mas ficou sem opção: teve que adaptar-se a este estilo de vida que para o resto do mundo já era comúm.
Em meados de fevereiro, a Karis recebeu o seu primeiro chamado para transplante. Por acaso, eu estive no quarto dela e atendi o seu telefone. Quando falei para a Karis do que tratava, ela ficou absolutamente pálida e começou a tremer. “Não posso, Mãe!” ela me disse, apavorada. “Diga-lhes não”.
Mais tarde, nós desconfiavamos do motivo daquele telefonema, pois a Karis não havia completado todos os requisitos pré-transplante. Mas ele serviu de alerta: a Karis teria de pensar e orar cautelosamente a respeito de tomar sua própria decisão quanto ao transplante, não apenas deixar-se levar pelo que a equipe em Pittsburgh recomendava.
"Senhor, eu gostaria muito que o Senhor me curasse, livrando-me de tudo isso," ela orava. "Se de alguma forma um transplante possa trazer-lhe glória, porém, que seja feita a tua vontade". Era difícil imaginar como este sofrimento pudesse beneficiar outras pessoas ou contribuir aos propósitos de Deus no mundo, mas ela estava confiante de que Deus podia curá-la a qualquer momento. O fato que ele não o fez, apesar de intercessões oferecidas a favor dela no mundo inteiro, significava para ela que Deus intencionava, de alguma forma, virar até um transplante arriscado em bênção, improvável como lhe parecia pela lógica humana.
Mais uma internação hospitalar supriu para ela tempo à parte para pensar e orar. Porém, os médicos resolveram aproveitar da internação para retirar os quatro dentes de siso, e mesmo a sua aparência cómica de inchaço de todo o rosto não inibia as visitas de muitos amigos. Alguém designou o seu quarto hospitalar "o centro de festas da faculdade".
De volta na faculdade, a Karis tentou recuperar os trabalhos atrasados, mas sem muito êxito. Ela continuou doente, com dores constantes, esgotada, lutando para achar a energia necessária para os desafios mínimos de cada dia. Desde a primeira infância ela havia se treinado a ignorar o mal-estar de seu corpo para que pudesse "ter uma vida", mas a esta altura, mesmo as estratégias mais confiáveis não funcionavam. Era-lhe claro que não poderia continuar assim por muito tempo.
Ela se animou, portanto, ao receber o segundo telefonema da coordenadora de transplante, às 00:30 no 27 de março, instruíndo-a a chegar no hospital em Pittsburgh até as 4:00 horas. Disposta desta vez para dizer sim, ela correu para despedir-se dos amigos e arrumar as malas. Voamos num jato particular até Pittsburgh e lá tivemos uma viagem assustadora do aeroporto até o hospital: o taxista ignorou as leis do trânsito para que chegássemos à tempo! As enfermeiras começaram imediatamente os procedimentos pré-cirúrgicos, com o transplante escalado para as 5:00 horas.
Às 5:00, porém, nos avisaram que a cirurgia havia sido cancelada! Descobriram irregularidades no intestino do doador. Logo que a Karis recebesse pelo soro um antídoto ao imunosupressor que havia tomado, ela receberia alta.
Alta—para ir até onde??! Não havíamos dormido a noite toda, lógico, e quando soube do cancelamento, a Karis imediatamente se pûs para dormir. Eu, porém, entrei num turbilhão de preocupação sobre o quê a gente deveria fazer. Não conhecíamos ninguém na cidade de Pittsburgh. Havíamos pagado um preço altíssimo pelo vôo particular e lá estávamos nós com todos os pertences, havendo desligado a Karis da universidade, agora sem motivos para estar em Pittsburgh! Conforme abriam-se os escritórios, fiquei sabendo que nenhuma das opções de hospedagem sugeridas pelo pessoal do hospital estava com vaga. Para que a Karis recebesse a NPT fora do hospital, precisávamos fornecer um endereço de casa, não de hotel.
Foi uma situação idônea para uma surpresa maravilhosa.
“Eis que envio um anjo à frente de vocês para protegê-los por todo o caminho e fazê-los chegar ao lugar que preparei” (Êxodo 23.20).
Do diario espiritual de John Wesley:
Senhor Jesus
Te entrego o meu corpo
A minha alma
Os meus pertences
A minha reputação
Os meus amigos
A minha liberdade
E a minha vida.
Faça comigo e com tudo que tenho
Como melhor lhe parecer.
Não sou mais meu, mas teu:
Portanto aproprie-se de mim
Encarregue-se de mim
Ame-me como filho teu.
Quando assaltado, me defenda.
Quando ferido, me sare.
Quando destruído, me revitalize.
